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Personalidades

Um artista entre nós: Solano Finardi, o retratista de celebridades que encontrou inspiração em Coronel Freitas

By JoelZ
28 de maio de 2026 4 Min Read
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No final dos anos 1980, um dos retratistas mais notáveis do sul do Brasil passou uma temporada em Coronel Freitas. Solano Finardi tinha pintado Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Maysa Matarazzo e até um príncipe europeu — e foi encontrar silêncio e inspiração nas paisagens rurais do oeste catarinense. Poucas pessoas ainda guardam essa memória. É hora de resgatá-la.

O homem que pintou o Brasil

Nascido em 27 de dezembro de 1938, na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, Solano Finardi descobriu a pintura aos oito anos, influenciado pela mãe, ela própria pintora. Desde o início, foi o retrato que o fascinou — essa forma de arte que ele próprio descrevia como “um trabalho feito a dois, de quem posa e de quem pinta”. Cada rosto que colocava na tela exigia horas de convivência, de escuta, de atenção.

Ao longo de quase 70 anos de carreira, Solano construiu um acervo de retratos que é, por si só, um mapa da cultura e da elite brasileira do século XX. Pelo seu ateliê passaram Nelson Rodrigues, o dramaturgo que reescreveu a alma brasileira; Clarice Lispector, a escritora mais enigmática do país; Maysa Matarazzo, voz inconfundível da MPB; a atriz Tônia Carrero; a apresentadora Elke Maravilha; o empresário Roberto Marinho; e até o Príncipe Juan de Bourbon, da casa real espanhola.

Sua obra cruzou fronteiras: em 1968, foi citado pela Arts Magazine de Nova York. Em 1971, venceu o prêmio “O Sorriso de Beethoven” e doou a obra premiada ao Beethoven-Haus Museum, em Bonn, na Alemanha. Em 2004, recebeu o título de Acadêmico Fundador da Academia Catarinense de Letras e Artes — uma das tantas marcas de sua ligação afetiva com Santa Catarina.

Solano Finardi com um de seus retratos
Solano Finardi com um de seus retratos — o artista dedicou quase 70 anos à pintura figurativa — Foto: solanofinardi.com.br

O convite de Paulo de Siqueira e a chegada ao oeste

A chegada de Solano Finardi a Coronel Freitas não foi por acaso — foi por amizade. Paulo de Siqueira, artista gaúcho radicado em Chapecó e autor do monumental O Desbravador — símbolo eternizado da capital do oeste catarinense —, era seu conterrâneo e, mais do que isso, tinha sido seu aluno. Foi Paulo quem convidou o mestre a conhecer a região, no final dos anos 1980.

O que Solano encontrou no oeste catarinense foi algo que as grandes cidades onde havia vivido — São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre — não ofereciam da mesma forma: silêncio, luz diferente e paisagens rurais intocadas. Para um artista que passava horas observando cada detalhe do rosto humano, as planícies e os campos do interior de Santa Catarina tinham uma qualidade quase meditativa.

As obras, as amizades e as noites no Clube Gaúcho

Durante sua passagem por Coronel Freitas, Solano produziu uma série de obras inspiradas na paisagem rural da região. Algumas delas hoje integram a coleção particular de Ariberto Bertoncelli, amigo e apoiador do artista que guarda com carinho as memórias daquele período.

Havia também o Dr. Yunes, médico que residia na cidade e era reconhecido incentivador das artes — uma daquelas figuras que, em cidades do interior, fazem a diferença ao abrir espaço para que a cultura aconteça. Junto a Paulo de Siqueira e ao próprio Solano, formava um trio de sensibilidades que tornava as conversas mais longas do que a noite costumava permitir.

E as noites eram longas. O antigo Clube Gaúcho era o ponto de encontro da sociedade coronelfreitense da época — um lugar de cerveja, churrasco e conversas que se estendiam pela madrugada. Quem viveu aquele tempo lembra de Solano ali, presente, entre os moradores da cidade, tão à vontade quanto se tivesse nascido naquelas terras.

Solano Finardi em seu atelie, pintando
Solano Finardi em seu ateliê — cada retrato demandava cerca de dez horas de interação com o modelo — Foto: solanofinardi.com.br

Um legado que vai além de Coronel Freitas

Solano Finardi deixou o oeste catarinense como chegou — discretamente —, mas os rastros ficaram. As telas na coleção de Ariberto Bertoncelli. As memórias de quem cruzou com ele nas noites do Clube Gaúcho. A consciência de que, por um tempo, uma das vozes mais importantes da arte figurativa do sul do Brasil tinha escolhido Coronel Freitas como seu lar provisório.

Nos anos seguintes, Solano viveu em Balneário Camboriú, no litoral catarinense, antes de se fixar definitivamente em Porto Alegre, onde sua obra continuou a ressoar. Faleceu em 2 de maio de 2019, aos 80 anos, com quase sete décadas de pintura e uma galeria de rostos que ajudou a definir a memória visual do Brasil do século XX.

Coronel Freitas não ocupa mais do que uma pequena estação na grande viagem de Solano Finardi. Mas esteve lá — e isso merece ser lembrado.


Fontes: solanofinardi.com.br — biografia oficial do artista. Relatos e memórias: Ariberto Bertoncelli. Fotos: reprodução / solanofinardi.com.br.

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JoelZ

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