
“Um crime bárbaro”: o livro que transforma em literatura uma história que o oeste catarinense prefere esquecer
A escritora Ieda Magri nasceu em Águas Frias — que foi distrito de Coronel Freitas até 1991 — e transformou em ficção literária premiada um crime brutal ocorrido ali em 1981. O livro Um crime bárbaro, publicado em 2022, ganhou o Prêmio Catarinense de Literatura no ano seguinte e abriu uma fresta de luz sobre uma ferida que a região preferiu, por décadas, manter no silêncio.

Um livro que não deixa esquecer
Há histórias que uma comunidade decide não contar. Que desaparecem das conversas, das memórias partilhadas, dos jornais. Mas que ficam — nas casas, nas famílias, no ar do lugar. Um crime bárbaro, da escritora catarinense Ieda Magri, parte de uma dessas histórias.
Publicado pela Autêntica Contemporânea em 2022 e vencedor do Prêmio Catarinense de Literatura de 2023 na categoria Melhor Romance, o livro é uma obra de autoficção: a narradora-protagonista recorda um crime terrível contra uma criança, ocorrido décadas antes numa pequena cidade do sul do Brasil, e decide voltar ao lugar para buscar o que ficou. Ao longo da investigação, esbarra nos obstáculos do silêncio, da memória fragmentada e da impunidade.
“Fui adiando essa história, e escrevi quatro livros antes”, disse a autora em entrevista ao Estado de Minas. “Como contar sem distorcer na ficção e sem colocar pessoas em perigo? Como contar sem causar mais dor à família da vítima?”
A história e a ligação com Coronel Freitas
O ponto de partida é um crime real: em agosto de 1981, uma menina de 13 anos foi brutalmente assassinada em Águas Frias, no oeste de Santa Catarina. À época, Águas Frias era ainda um distrito de Coronel Freitas — a emancipação do município só aconteceria dez anos depois, em 1991. O crime chocou a região, teve investigação inconclusiva e nunca foi devidamente esclarecido pela Justiça.
Décadas depois, pouca gente fala abertamente sobre o episódio. Mas ele nunca saiu completamente da memória coletiva — e é exatamente nesse silêncio que Ieda Magri encontra a matéria de seu livro. A autora, que tinha quatro anos quando o crime aconteceu, cresceu ouvindo as histórias que circulavam em sussurros. “Passados 40 anos, ao buscar vestígios e ouvir histórias que se tornaram quase lendas, a narradora apresenta os meandros da vida local e o cenário de impunidade do caso.”
O livro não funciona como um true crime convencional — não há revelação de culpados, não há resolução. O que há é a tentativa honesta e corajosa de olhar para o que aconteceu, sem sensacionalismo e sem apagar a dor das pessoas reais envolvidas. A crítica literária nacional reconheceu exatamente isso: a obra foi comparada a autoras como Selva Almada e Patrícia Melo, que também exploram feminicídios e violência de gênero com densidade literária.
Quem é Ieda Magri

Ieda Magri nasceu em 1977 em Águas Frias, Santa Catarina, e vive hoje no Rio de Janeiro. Doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ, é professora de Teoria da Literatura na UERJ e pesquisadora do CNPq. Iniciou sua formação em Letras em Chapecó e fez mestrado na UFSC, em Florianópolis.
É autora de uma obra plural e premiada:
- Tinha uma coisa aqui (7Letras, 2007) — estreia
- Olhos de bicho (Rocco, 2013) — finalista do Prêmio SP de Literatura 2014
- Ninguém (7Letras, 2016)
- Uma exposição (Relicário)
- Um crime bárbaro (Autêntica Contemporânea, 2022) — Prêmio Catarinense de Literatura 2023, Melhor Romance
- Xaxim (Autêntica Contemporânea)
- O nervo exposto: João Antônio, experiência e literatura (Lume) — ensaio
Com Um crime bárbaro, Ieda Magri foi reconhecida não apenas pela crítica nacional, mas recebeu seu maior prêmio até então — confirmando o alcance e a maturidade de uma escrita que sempre olha de frente para o que é difícil de ver.
Por que ler
Para quem vive no oeste catarinense — especialmente em Coronel Freitas e na região de Águas Frias —, Um crime bárbaro tem um peso especial. Não é um livro fácil. Mas é um livro necessário: o tipo de obra que devolve à visibilidade aquilo que foi deliberadamente enterrado, que respeita as vítimas sem romantizá-las e que coloca em xeque o silêncio como forma de lidar com o que dói.
A literatura pode fazer o que o tempo e o esquecimento não conseguem desfazer: nomear, preservar, e — quando feita com cuidado e honestidade como aqui — oferecer alguma forma de compreensão.
O livro está disponível em livrarias físicas e online, incluindo a Amazon e a Martins Fontes.
Fontes: Autêntica Contemporânea; Estado de Minas; Rascunho; CartaCapital. Foto da autora: Autêntica Contemporânea. Capa do livro: reprodução.